ABRINDO A CAIXA...
Quando iniciamos o ritual de cada dia, que é fazer teatro, sempre nos vem o questionamento a respeito do que queremos falar, para quem e de qual maneira.
Chegamos à conclusão de que a coisa que mais nos inquieta, nesse momento, é a forma como as pessoas tem se relacionado umas com as outras, cada vez mais voltadas para si e bloqueando o que há de mais importante na existência humana: a relação com o outro. Pois, como diria o poeta “é impossível ser feliz sozinho”.
Pensando a esse respeito decidimos iniciar as pesquisas sobre a temática e escolhemos dois mitos gregos para representar nossa inquietação quanto à questão. Narciso e Eco, escritos na Grécia antiga, representam bem o que, nós, artistas da Cia. Caixa Aberta, queríamos dizer no século XXI. E ai começou mais uma inquietação sobre como levar isto ao publico.
Há três anos venho desenvolvendo pesquisas e práticas sobre o teatro de formas animadas, tendo, em janeiro de 2009 fundado em parceria com a atriz Tacira Coelho a Cia. Bonecas de Trapo, onde montamos nosso primeiro espetáculo no formato Lambe-Lambe, que era uma releitura da cantiga de roda “Terezinha de Jesus”. Ficamos em cartaz durante todo o ano 2009 e em boa parte do ano de 2010. Porém nossas pesquisas individuais ganharam outros rumos e no segundo semestre de 2010 parti para uma residência artística no Centro de Pesquisas Lambe-Lambe Brasil em Santa Catarina, onde pude aprofundar meus conhecimentos sobre o teatro em miniatura. Quando retornei à Bahia no inicio de 2011 os projetos eram muitos e as novas perspectivas e pessoas que iam surgindo fez nascer este grupo onde revisitamos a ideologia da “Bonecas de Trapo”, porém, buscando uma consistência ainda maior no que fazemos, tendo sempre em nosso pensar artístico o ideal de coletividade. “A Caixa” tem sido o lugar seguro que encontramos para guardar nossas memórias mais valiosas de tradição juntamente à contemporaneidade das idéias que se renovam a cada dia, a espera do momento em que podemos entregá-la ao nosso publico como uma recheada caixa de presentes e sonhos.
Pensando na experiência teatral decidimos então que, já que vínhamos pesquisando o teatro lambe-lambe não tinha forma melhor de levarmos os mitos até o publico, pois, o pequeno teatro apesar de ser apresentado individualmente leva a idéia de grupo em sua concepção, onde o ator-manipulador se permite compartilhar aquela experiência única com o espectador que individualmente assiste ao espetáculo deixando transcender suas expectativas e contagiando aos outros que estão do lado de fora à espera do seu momento de partilhar desse encontro.
Yohanna Marie Assumpção - Diretora Artística